Como a lógica da exclusão persiste no Brasil


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Após as comemorações do 18/05 é preciso ter consciência da persistência da lógica manicomial e como esta aparece de diferentes maneiras. Mesmo com os avanços da Reforma Psiquiátrica e a promulgação de leis que buscam um tratamento mais humano para a saúde mental, a lógica e o discurso manicomial ainda lançam sombras sobre a sociedade brasileira. Essa persistência se manifesta de formas sutis e explícitas, perpetuando o estigma, a exclusão e a dificuldade de integração plena das pessoas com sofrimento psíquico.

Uma das formas mais comuns dessa persistência reside no estigma social. O "louco" (e generalizando para qualquer pessoa em sofrimento psíquico ou com alguma deficiência) ainda é frequentemente associado à periculosidade, à incapacidade e à imprevisibilidade. Essa imagem, construída historicamente dentro dos muros dos manicômios, dificulta a aceitação e a compreensão das experiências de saúde mental na comunidade. Piadas, comentários depreciativos e o medo infundado revelam como o discurso manicomial internalizou-se no senso comum, mantendo as pessoas com transtornos mentais à margem.

No âmbito das instituições, mesmo fora dos antigos hospitais psiquiátricos, a lógica manicomial pode se manifestar em práticas que restringem a autonomia e a voz dos usuários. A falta de escuta qualificada, a medicalização excessiva sem considerar as dimensões psicossociais e a dificuldade em oferecer alternativas de cuidado centradas na vida e nos desejos do indivíduo reproduzem, em menor escala, a exclusão e a perda de subjetividade características do modelo asilar.

A mídia também desempenha um papel importante na perpetuação dessa lógica. A representação sensacionalista e estereotipada de pessoas com transtornos mentais, frequentemente associadas à violência ou ao tragicômico, reforça o medo e o preconceito na sociedade. A ausência de narrativas que humanizem e complexifiquem as experiências de saúde mental contribui para manter o "outro" em uma categoria à parte, distante da vivência comum.

Além disso, a falta de investimento adequado e a desarticulação da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) podem levar às mesmas práticas de isolamento sob uma nova roupagem. A dificuldade de acesso a serviços de saúde mental de qualidade, a escassez de leitos em hospitais gerais e a falta de suporte para a inserção social, na prática, reproduzem a exclusão que a reforma buscou superar.

A persistência da lógica manicomial também se revela na dificuldade de implementar plenamente os princípios da desinstitucionalização. O fechamento de manicômios não garante automaticamente a inclusão social. É necessário um investimento contínuo em serviços substitutivos, em moradia, em trabalho e em projetos de vida que permitam às pessoas com sofrimento psíquico exercerem sua cidadania plena.

Em suma, embora o Brasil tenha avançado significativamente na luta antimanicomial, as sombras do antigo modelo ainda pairam sobre a sociedade. O estigma internalizado, as práticas institucionais inadequadas, a representação midiática distorcida e a fragilidade da RAPS contribuem para manter a lógica excludente do manicômio viva. Reconhecer essas persistências é fundamental para continuarmos avançando em direção a uma sociedade mais justa, inclusiva e verdadeiramente comprometida com a saúde mental de todos. A luta antimanicomial é um processo contínuo que exige vigilância, reflexão e ação constante. 

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