Setembro Amarelo: precisamos falar sobre a ridicularização das pessoas que estão em psicoterapia, do CAPS e das medicações psiquiátricas

 

Dando continuidade aos temas sobre o SetembroAmarelo, outros pontos de extrema importância precisam postos em debate para efetivamente falarmos de saúde mental. Lembremos que não basta iluminar monumentos de amarelo ou compartilhar mensagens positivas nas redes sociais. É preciso encarar os preconceitos que continuam afastando pessoas da busca por ajuda. Entre eles, estão as piadas com quem faz terapia, a ridicularização do CAPS e o medo de ser julgado por usar medicamentos psiquiátricos.

Essas atitudes aparentemente inofensivas escondem um grande problema social: elas reforçam o estigma, alimentam o preconceito e afastam milhares de pessoas do tratamento adequado. O resultado é perigoso: atrasos no diagnóstico, resistência a buscar ajuda profissional e agravamento de quadros que poderiam ser tratados.

Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é uma das principais causas de morte entre jovens de 15 a 29 anos, e quase sempre está ligado a transtornos mentais que podem ser tratados. Isso mostra o quanto é necessário falar, acolher e desmistificar os cuidados em saúde mental.

 

A ridicularização da psicoterapia: “fazer terapia é coisa de louco?”

Infelizmente, ainda é comum ouvir frases como:

  • “Quem faz terapia não dá conta da vida.”
  • “Psicólogo é só para doido.”
  • “Você não precisa de terapia, precisa trabalhar mais.”
  • “Você só precisa de oração!”
  • “Isso é falta de Deus!”

Esse tipo de discurso reforça a ideia equivocada de que a psicoterapia é sinal de fraqueza. Na realidade, a terapia é um recurso de fortalecimento emocional, autoconhecimento e superação de desafios que faz parte da vida de milhões de pessoas no mundo todo.

De acordo com a American Psychological Association (APA), a psicoterapia ajuda a reduzir sintomas de ansiedade, depressão, transtornos alimentares, dependência química e até mesmo problemas físicos relacionados ao estresse, como dores crônicas.

Quando as pessoas que estão em psicoterapia são ridicularizadas, elas podem:

  • Sentir vergonha de continuar ou até mesmo buscar atendimento.
  • Abandonar o processo antes de colher os benefícios.
  • Evitar compartilhar suas dificuldades com familiares e amigos.

Ou seja: a piada que parece inocente tem um impacto profundo na saúde de quem precisa de ajuda.

 

O estigma em torno do CAPS: “lugar de doido”

Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) são serviços públicos de saúde mental no Brasil, criados para oferecer cuidado especializado e humanizado a pessoas em sofrimento psíquico intenso ou em uso problemático de álcool e outras drogas.

Apesar de seu papel essencial, muitas vezes os CAPS viram alvo de piadas:

  • “Fulano tá tão estranho que já já vai parar no CAPS.”
  • “Cuidado, senão vão te internar no CAPS.”

Esse tipo de comentário carrega uma ideia distorcida: a de que o CAPS é um lugar de exclusão ou punição, quando, na realidade, é um espaço de acolhimento, tratamento e reinserção social.

Além disso, tais falas alimentam o medo de procurar o serviço, principalmente em pessoas de baixa renda, que dependem do Sistema Único de Saúde (SUS) para ter acesso a cuidados de qualidade. Assim, milhares deixam de buscar atendimento por receio de serem estigmatizadas.

É preciso entender que o CAPS não é um espaço de “loucos”, mas um pilar fundamental da rede de saúde mental brasileira, que garante dignidade, autonomia e suporte integral a quem mais precisa.

 

O tabu sobre as medicações psiquiátricas

Outro ponto crucial é o preconceito em relação ao uso de medicamentos psiquiátricos. Não é raro ouvir comentários como:

  • “Quem toma remédio controlado é doido.”
  • “Essas drogas só deixam a pessoa dopada.”
  • “Psiquiatra só quer te viciar em remédio.”
  • “Isso é coisa de gente surtada.”

Esses mitos geram medo e vergonha, levando muitas pessoas a recusar ou abandonar tratamentos que poderiam salvar suas vidas.

Na realidade, os medicamentos psiquiátricos, quando prescritos e acompanhados por profissionais qualificados, são ferramentas seguras e eficazes no tratamento de transtornos como depressão, ansiedade generalizada, bipolaridade e esquizofrenia.

Negar o acesso a essas terapias ou ridicularizar quem precisa delas é o mesmo que zombar de um diabético que usa insulina ou de um hipertenso que toma remédios para controlar a pressão.

Por que essas atitudes são tão prejudiciais?

A ridicularização da psicoterapia, do CAPS e das medicações psiquiátricas não é apenas uma questão de falta de empatia. Ela gera consequências diretas na saúde pública e no combate ao suicídio, como:

- Atraso na busca por ajuda: pessoas com sintomas de sofrimento psíquico demoram mais a procurar atendimento, temendo o julgamento.

- Abandono de tratamento: pacientes interrompem a psicoterapia ou suspendem o uso de medicamentos para evitar críticas.

- Isolamento social: o medo de ser estigmatizado leva à solidão e ao agravamento do quadro clínico.

- Aumento do risco de suicídio: sem tratamento adequado, cresce a chance de que o sofrimento leve a desfechos trágicos.

Ou seja: o preconceito mata.

Como transformar esse cenário?

Para superar esse problema, é preciso atuar em diferentes frentes:

Educação e informação acessível

Campanhas como o Setembro Amarelo precisam ir além do alerta sobre o suicídio, incluindo informações claras sobre psicoterapia, CAPS e medicações. Mostrar que esses recursos são aliados da vida é essencial para reduzir o estigma.

Exemplos positivos

Celebridades, influenciadores digitais e figuras públicas que falam abertamente sobre seus processos terapêuticos ou uso de medicação contribuem para normalizar o tema e inspirar outras pessoas a buscarem ajuda.

Conversas abertas em família e escolas

Trazer a saúde mental para o cotidiano, sem tabu, ajuda jovens e adultos a compreenderem que procurar ajuda não é motivo de vergonha, mas de coragem.

Formação de profissionais da saúde

Médicos, psicólogos, enfermeiros e agentes comunitários precisam estar preparados para lidar com o preconceito, oferecendo orientações humanizadas e acolhedoras.

Combate às piadas e comentários pejorativos

Não rir de uma piada sobre CAPS, não reforçar frases preconceituosas e corrigir informações falsas são atitudes simples que ajudam a mudar a cultura.

 

Setembro Amarelo: além da cor, a mudança de mentalidade

Iluminar prédios de amarelo é simbólico, mas não basta. É urgente que o Setembro Amarelo seja também um convite para repensarmos nossas atitudes em relação à saúde mental.

Cada vez que alguém é ridicularizado por fazer psicoterapia, frequentar o CAPS ou usar medicamentos, a mensagem transmitida é de que a dor emocional não merece cuidado. Essa postura contradiz tudo o que a campanha representa: acolhimento, prevenção e valorização da vida.

O papel da mídia e das redes sociais

As redes sociais e os veículos de comunicação têm grande responsabilidade na forma como tratam a saúde mental. Piadas em programas de TV, memes nas redes e falas de influenciadores podem reforçar estigmas ou, ao contrário, promover conscientização.

Durante o Setembro Amarelo, é essencial que jornalistas, criadores de conteúdo e comunicadores se comprometam com informações de qualidade, evitando reforçar preconceitos e ajudando a construir uma narrativa positiva sobre a psicoterapia e os tratamentos disponíveis.

Caminhos para uma cultura de acolhimento

A mudança de mentalidade em relação à saúde mental é lenta, mas possível. Algumas ações práticas que podemos adotar como sociedade são:

  • Valorizar quem busca ajuda psicológica;
  • Falar sobre CAPS com respeito e reconhecimento;
  • Normalizar o uso de medicamentos quando necessário;
  • Ensinar crianças e adolescentes sobre saúde mental desde cedo;
  • Promover políticas públicas que garantam acesso universal e de qualidade ao cuidado psicológico e psiquiátrico.

O Setembro Amarelo é uma oportunidade para salvar vidas. Mas, para isso, precisamos enfrentar de frente os preconceitos que ainda cercam a psicoterapia, os CAPS e as medicações psiquiátricas.

Ridicularizar esses recursos não é apenas falta de empatia: é uma atitude que pode afastar pessoas da ajuda que precisam e, em casos extremos, custar vidas.

Falar sobre saúde mental com seriedade, respeito e acolhimento é um compromisso coletivo. Cada vez que quebramos um tabu, desmentimos um mito ou oferecemos apoio, damos um passo para uma sociedade mais saudável, inclusiva e humana.

No Setembro Amarelo, e durante todo o ano, lembre-se: procurar ajuda não é fraqueza, é um ato de coragem. A vida sempre vale a pena.


Cuidar da mente e das emoções é investir em você e no seu futuro. Agende sua sessão de psicoterapia.

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